Clube dos Pescadores de Piabas & Cia

O Diálogo entre Deus, o Homem e a Árvore

 

Como todos os dias acontece, foi-lhe desferido o primeiro golpe. A arma foi preparada com desvelo e eficácia. Era um machado. Naquele exato momento, a desditosa e esquálida árvore reclamou:

Senhor, tu me fizestes desde os primórdios tão frondosa e exuberante para servir à não menos exuberante natureza em todos os seus nichos. Tu me fizestes maravilhosa, aparentemente forte, mas verdadeiramente incapaz de me auto-proteger contra os ataques que levantam-se contra mim diariamente. Por que Senhor? Por que fizestes-me tão tenra e sem forças para reagir contra os ataques desses animais que se denominam "seres racionais"?

E então o eterno Criador responde: OH Criatura minha!!! Fiz-te tão perfeita quanto toda a minha criação para servi-la de uma ou outra forma. Se és tão frondosa e útil à toda criatura, nascestes também, como todas os outros seres vivos, sob a terrível sina de um dia perecer. Eu quis que assim fosse. Este ser que te destrói é também criatura de minhas mãos, e muito mais que isso, é verdadeiramente a menina dos meus olhos. Concedi a ele, e tão-somente a ele, a capacidade de entendimento e de domínio sobre tudo o que há na terra. Acima de tudo, outorguei a ele o discernimento e a autodeterminação de seu rumo sob o pseudônimo de "livre arbítrio". Essa minha obra prima, chamada "homem", foi criada para viver, aprender, errar, reaprender, construir, destruir e reconstruir. Ele é soberano.

E a árvore pergunta: Mas por que dentro de sua soberania e inteligência esse ser me ceifa a vida, às vezes sem uma finalidade definida, sem um objetivo plausível? Por que o homem trata-me com tanto desprezo sendo que eu também sou quem lhe dá o sustento e torna sua existência possível? Dentre outras coisas, dou-lhe os meus frutos; dou-lhe oxigênio; protejo as margens dos rios que lhe dão a cristalina água, indispensável à subsistência de todo ser vivo e cedo-lhe o refrigério nos dias de causticante sol. Considerando que não faço mal a nenhuma criatura tua, Senhor, será que o simples fato de eu existir provoca nesses seres tamanho ódio?

Num átimo, observando o diálogo em andamento e já arrependido pelos malefícios de sua obra, o homem se manifesta dizendo: Senhor, tu me destes toda a terra para gerenciar e para utilizar em meu próprio benefício tudo o que nela há. Reconheço que utilizei de forma errada o livre arbítrio que me outorgastes desde a minha criação. Pela minha ganância, destruí grande parte ou quase tudo do que me destes com tanta generosidade. Por isso cesso aqui o meu ato e tentarei sarar a ferida que provoquei sem nenhuma necessidade. Ensina-me como agir para sarar a doença que espalhei sobre toda a terra.

Então, finalmente, o Criador disse: Filho meu, dei-te toda a terra com toda a sua benevolência para que vivestes harmonicamente com ela. Dei-te a inteligência e o livre arbítrio para tomardes o rumo que mais fosse conveniente. Vejo agora que toda a inteligência que a ti foi outorgada desde a criação não foi suficiente para que percebestes que quando tiras a vida de sua casa também estás matando a ti mesmo e a seus descendentes. Por isso, baixo agora um ordenamento:

1 - Não ceifarás a vida de uma árvore sem que seja extremamente necessário à sua subsistência;

2 - Quando derrubardes uma árvore, plantarás a vida de outras para que no futuro sirva também a seus descendentes;

3 - Serás, durante toda a sua existência, um vigilante assíduo contra aqueles que atentarem desnecessariamente contra a vida de toda a minha criação;

4 - Regarás a tenra planta quando estiver sedenta;

5 - Não incendiarás as tuas florestas;

6 - Ministrarás o remédio à planta que estiver doente:

7 - Farás de teus filhos também assíduos defensores de meus ordenamentos;

8 - Reconstruirás tudo aquilo que já destruístes;

9 - Utilizarás a seiva de toda a planta para curardes os males de teu corpo;

10 - E por fim, Vá, e não destruas mais.

 

Autoria: Mirabeau Ferraz Henriques, Presidente da Pescadores de Piabas e Cia. 2000.

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